"Que seja doce."(CFA)

quarta-feira, outubro 20, 2004

I must confess

“Pus o amor de castigo, em algum lugar, talvez onde começa a imaginação e termina a excitação sexual das flores, não sei. Estou feliz porque não me importo mais com o coração. É uma felicidade ácida” (Dodô Azevedo, Pessoas do Século Passado)


Preciso de frases que façam efeito.
Confesso que alguns dias acordo e não sinto na-da, absolutamente nada e tenho medo, não quero ficar cínica. Mas é só uma desconfiança, nada demais. Confesso que sento para ler no banco cinza embaixo da escada, de propósito, como gosto de esticar a perna ao máximo para escapar da poça, mas não salto, apenas estico a ponta dos pés e espero tocar o chão do outro lado. Não corro para atravessar a rua quando um assassino em potencial acelera ao volante, pelo contrário, caminho mais devagar e sorrio: não confunda isso com suicídio, não, nada disso, o que estou fazendo é uma lição de civilidade radical.
Confesso que não peço mais para ser, simples assim, já sendo. Olho o céu como quem olha uma pessoa e quase digo olá, converso com o ar vezenquando e me irrito com as vozes das meninas na cozinha, bem cedo de manhã. Gosto de gente, mas não consigo gostar de quem me quer mal :elas deixam de existir, simplesmente. Não suporto pretensão em gente medíocre como não suporto o puxa-saquismo dos amigos: ando realista, tenebrosamente realista. De olhar dentro do olho e falar: não. De não ter paciência alguma para mentiras dóceis, exercito a sinceridade de forma quase brutal: não vou, não quero, ando germinando nãos, para um sim exuberante florescer entre eles. Tem sido a única maneira de me manter lúcida sem agonia.

Confesso que não me envergonho de entender. Estou acordada faz tanto tempo que não devia mais fazer aniversário. Leio, ouço e desejo compulsivamente: meu pai teme por mim e caminha mais vezes no corredor de minha casa, fumando seus cigarros. Ninguém precisa me contar disso, eu sei. Existe força no sangue, mas há algo mais, acredite: há algo bem mais profundo além do que corre nas veias e tem a cor perfeita. Não quero lembrar mais do que me dói, me recuso a covardias, talvez por isso tenha respondido à sua pergunta: “derreta a aliança e faça uma figa”. Aprendi que o tal açúcar sou eu e não me envergonho, quem quiser achar idiota, vai poder achar: sou açúcar. Rosa.

Confesso que certos destinos são óbvios, tanto que apenas dou de ombros ao constatar a resolução deles. É engraçado agora perceber a mudança que ocorre nas pessoas quando lhe arrancam o motivo-motor: engraçado que isso ocorra tantas vezes na vida, parecendo gritar que só podemos ser a raiz de nós mesmos. Não me apóio na idéia de uma mão amparando a minha ao descer a escada, isso já foi, uma era, ou duas, atrás. Conheço o fundo do mar por mergulhos péssimos. Tenho marcas nos joelhos pelos tombos solitários, situações constrangedoras onde apesar de saber, desafiava-me a continuar. Não guardo marcas nas mãos dos murros nas pontas, mas carrego marcas nas asas de to-dos os desatinos. Só agora percebo que posso ser criatura de ambos os lados: chiaro e scuro.

(continua qualquer dia)